sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mitologia grega: preliminares - Junito de Souza Brandão

Mitologia grega: preliminares

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Os mitos gregos só se conhecem através da forma escrita e das imóveis composições da arte figurada, o que, aliás, é comum a quase todas as mitologias antigas. Ora, a forma escrita desfigura o mito de algumas de suas características básicas, como, por exemplo, de suas variantes, que se constituem no verdadeiro pulmão da mitologia. Com isso, o mito se enrijece e se fixa numa forma definitiva. De outro lado, a forma escrita o distancia do momento da narrativa, das circunstâncias e da maneira como aquela se converteria numa ação sagrada. Um mito escrito está para um mito "em função", como uma fotografia para uma pessoa viva. E se é verdade que a forma escrita é uma característica das mitologias antigas, a grega ainda está comprometida por outra particularidade. Mitos existem, fora do mundo grego, que, mesmo em sua rígida forma escrita, conservaram um nítido e indiscutível caráter religioso: são aqueles cujo contexto tem um cunho ritual.

O Enûma Elîsb 1, por exemplo, se reduz a um vasto repertório ritual. Se dos mitos egípcios se conhece relativamente pouco, é por-

1. Enûma Elîsb são as duas primeiras palavras do grande poema babilônico e que significam "Quando, no alto..." O poema é inexatamente denominado Poema da Criação, assunto que ocupa uma parte mínima da narrativa. Melhor seria chamá-lo Poema da exaltação de Marduk.

que tudo quanto nos chegou de autêntico provém de textos rituais, como os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos, O Livro dos Mortos. . . Análoga é a situação dos mais antigos textos rituais da Índia.

Acontece, no entanto, que a Grécia antiga não nos legou um único mito em contexto ritual, embora se pudesse, talvez, defender, ao menos como parte de um rito, o que chegou até nós de alguns festejos dionisíacos.

"A mitologia grega chegou até nós através da poesia, da arte figurativa e da literatura erudita, ou seja, em documentos de cunho 'profano'" 2, se bem que profano aqui no caso deva ser tomado em sentido muito lato, uma vez que poesia, arte figurativa e literatura erudita tiveram por suporte o mito.

É claro que houve, na Grécia, um liame muito forte entre literatura, arte figurativa e religião, mas, ao plasmar o material mitológico, os poetas e artistas gregos não obedeciam tão-somente a critérios religiosos, mas também, e isso é fácil de se perceber, a ditames estéticos. Toda obra de arte como todo gênero artístico e literário possuem exigências intrínsecas. Entre narrar um mito, que é uma prâxis sagrada, em determinadas circunstâncias, para determinadas pessoas, e compor uma obra de arte, mesmo alicerçada no mito, vai uma distância muito grande. A famosa lei das três unidades (ação, tempo e lugar), embora de formulação tardia, como teoria poética, está presente na tragédia clássica. Tal lei não é válida para o mito, que se desloca livremente no tempo e no espaço, multiplicando-se através de um número indefinido de episódios. Para reduzir um mitologema a uma obra de arte, digamos, a uma tragédia, o poeta terá que fazer alterações, por vezes violentas, a fim de que a ação resulte única, se desenvolva num mesmo lugar e "caiba" num só dia.3 Não é em vão que, as mais das vezes, a tragédia grega se inicia in medias res. Édipo Rei de Sófocles começa quando termina o mito! O flashback fará o milagre de recompor o restante. . .

A redução do mito a uma obra de arte traz outra conseqüência com vistas à documentação mitológica. O mito, como já se assinalou, vive em variantes; ora, a obra de arte, de conteúdo mitológico, somente pode apresentar, e é natural, uma dessas variantes.

2. BRELICH, Angelo. Gli Eroi Greci. Roma, Edizioni dell'Ateneo e Bízzarri, 1978, p. 33sqq.

3. Veja-se BALDRY, H. C. The Dramatization of the Theban Legend. Greece and Rome, s. 2, v. 3, p. 24sqq.

Acontece que, dado o imenso prestígio da poesia na Grécia, a variante apresentada por um grande poeta impunha-se à consciência pública, tornando-se um mito canônico, com esquecimento das demais variantes, talvez artisticamente menos eficazes, mas, nem por isso, menos importantes do ponto de vista religioso.

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As alterações sofridas pelos mitos gregos, todavia, não se restringem aos poetas e artistas. Estes, conquanto reduzissem o mito e o recriassem, alterando-o, para que o mesmo pudesse atender às novas exigências artísticas, de qualquer forma o aceitavam e mantinham.

Bem diferente é a atitude do pensamento racional, sobretudo dos Pré-Socráticos, muitos dos quais tentaram desmitizar ou dessacralizar o mito em nome do lógos, da razão. Acertadamente afirma Mircea Eliade: "Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia (e acrescentaríamos o lirismo), mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente 'desmitizado'. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia 'clássica', tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias o vocábulo 'mito' denota uma 'ficção', é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos".4

A crítica dos filósofos jônicos não visava, na realidade, ao pensamento mítico, à essência do mito, mas aos atos e atitudes dos deuses, tais quais os concebiam Homero e Hesíodo. A crítica fundamental era feita "em nome de uma idéia cada vez mais elevada de Deus". Um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adúltero e ciumento, como enfatiza Xenófanes (576-480 a.C.), de Cólofon, na Ásia Menor: "No dizer de Homero e de Hesíodo os deuses fazem tudo quanto os homens considerariam vergonhoso: adultério, roubo, trapaças mútuas" (Frgs. B11, B12). Repele a concepção de que os deuses tenham tido um princípio e se assemelhem aos homens: "Mas os mortais acreditam que os

4. ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. Tradução de Pola Civelli. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1972, p. 130.

deuses nasceram, que usam indumentária e que, como eles, têm uma linguagem e um corpo" (Frg. B14). O antropomorfismo, iniciado com Homero e aperfeiçoado por Hesíodo, é violentamente censurado: "Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e pudessem, com suas mãos, pintar e produzir as obras que os homens realizam, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois e a eles atribuiriam os corpos que eles próprios têm" (Frg. B15).

Para Xenófanes, a idéia de Deus é algo mais sério: "Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais" (Frg. B23).

A crítica racionalista veio num crescendo, e o mito recebeu com Demócrito (520-440 a.C.) um duro golpe. Com efeito, o sistema mecanicista do filósofo de Abdera, na Trácia, reduz tudo a um entrechoque de partículas insecáveis, ingênitas, denominadas STOJHH (átomoi), (átomos, indivisível). "Por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos" 5, os seres, a alma, os deuses, mas tudo, porque tudo é matéria, está sujeito à lei da morte.

Assim, para Demócrito, os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. Os deuses existem, mas são entes superiores ao homem, embora compostos também de átomos e, portanto, sujeitos à lei da morte. "Deus verdadeiro e natureza imortal não existem".

Dois outros sérios entraves para o mito foram a "dicotomização" e a "politização". A primeira teve por corifeu a um dos maiores e mais religiosos poetas da Hélade, Píndaro (521-441 a.C), com toda a justiça cognominado o príncipe dos poetas e o poeta dos príncipes, o qual, em nome da moral, começou a filtrar o mito. Para o gigantesco poeta tebano, dentre as diversas variantes de um mitologema, somente uma é verdadeira; as demais são coisas que possuem apenas o crédito dos poetas: "O mundo está repleto de maravilhas e, não raro, as afirmativas dos mortais vão além da verdade; mitos, ornamentados de hábeis ficções, nos iludem. .. As Graças, a quem os mortais devem tudo quanto os seduz,

5. FRANÇA, Leonel, S.J. Noções de História da Filosofia. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1952, 13ª ed., p. 40sqq.

tributam-lhes honras e, as mais das vezes, fazem-nos crer no incrível!"6 E vai mais longe sua tesoura ética: "O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro".7 E quantas vezes o maior dos líricos da Grécia antiga não truncou, não podou e alterou o mito, para torná-lo compatível com suas exigências morais.

Também Esquilo (525-456 a.C.), o pai da tragédia, depurou o mito para dele extrair tão-somente a variante sadia, como já o demonstramos em livro recente: "O dever do poeta, diz Ésquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício, não propagá-lo e trazê-lo à cena. Com efeito, se para as crianças o educador modelo é o professor, para os jovens o são os poetas. Temos o dever imperioso de dizer somente coisas honestas".8

Eurípides (480-406), o trágico da solidão, seguiu as pegadas de Xenófanes: sua concepção religiosa é alta e depurada, como salientamos na longa Introdução que fizemos ao poeta e suas idéias na tragédia Alceste.9

Outro perigo para a mitologia foi a "politização", que, muitas vezes, usando e abusando de deslocamentos do mito, particularmente do mito dos heróis, fez que os mesmos tivessem por passagem inevitável, viessem de onde viessem, a cidade de Atenas. A peregrinação, como se pode ver na Introdução que fizemos ao mito dos herós, no terceiro volume, é uma característica típica dos heróis, mas eleger Atenas como ponto obrigatório de convergência dos mesmos, só se pode atribuir a intenções políticas. O desejo de defender a hegemonia política da Cidadela de Atená levou seus poetas a "depurarem" e a castrarem, com esse encontro marcado, certos mitos de heróis locais, acrescentando-lhes gestas de heróis de cidades vizinhas, fabricando-lhes genealogias espúrias, atribuindo-lhes importantes fatos históricos com total inversão da cronologia. De modo inverso, as glórias e feitos dos heróis das cidades inimigas foram denegridos e empanados. Não foi com outro intento que desfilaram pelas ruas de Atenas Admeto da Tessália, Édipo de Tebas, Adrasto de Sicione, Orestes de Argos. ..

Na realidade, a crítica racionalista entrou pelo século V a.C. e acabou por fazer discípulos ilustres. Ao contrário do crédulo

6. Olímpicas, 28-33.

7. Ibid., 35.

8. BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro Grego, Origem e Evolução. Rio de Janeiro, TAB-Editora, 1980, p. 46sqq.

9. EURÍPIDES. Alceste. Tradução de Junito de Souza Brandão. Rio de Janeiro, Bruno Buccini Editor, 1968. 3ª ed., p. 19sqq.

Heródoto (480-425 a.C.), Tucídides (460-395 a.C.) baniu os deuses de sua História da Guerra do Peloponeso. Nesta, 1, 21, o adjetivo (mythôdes), que significa "semelhante ao mito", passou a ter a acepção de "fabuloso", na expressão (tò mè mythôdes), o que não é fabuloso, numa clara alusão ao mito. De pouco adiantaram as chicotadas e a "xingologia" do maior dos cômicos universais, Aristófanes (445-388 a.C.), contra os inovadores. Os sofistas, mercê da atitude intelectual de alguns pensadores precedentes, aproveitando-se das condições políticas e sociais do tempo, abalaram, com sua teoria ancípite e demolidora, os nervos da pólis. Prevalecendo-se do caminho já aplainado pelo ceticismo, entre outras sérias "depurações", procuraram varrer o mito da mente de seus jovens discípulos, como tentamos demonstrar em As Nuvens. 10

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Na realidade, a mitologia deixou o século V a.C. meio coxa, "depurada" e cambaleante. De saída teve, no século IV a.C, um encontro dramático com o Epicurismo. Epicuro (341-270 a.C), retomando o atomismo materialista de Demócrito, procurava libertar o homem do temor dos deuses e da necessidade inexorável da Moita. Afinal, se os deuses, distantes e desinteressados do homem, são também matéria, sujeitos, por conseguinte, à morte, já que formados, como os homens, por entrechoques atômicos, por que temê-los? O além, grande preocupação do homem grego, não existe. Se tudo é matéria, deuses e alma, o bem supremo está no prazer negativo, na ausência de dor para o corpo e de perturbação para a alma. Deus ou os deuses não agem. De sua Ética nos ficou um fragmento sombrio acerca da fragilidade e impotência divina face ao problema do mal: "Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso, o que, igualmente, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que Deus não os impede?"

Parecia morta a mitologia. Os deuses agora não estavam apenas desmitizados, mas também dessacralizados. Mas eis que, em

10. ARISTÓFANES. As Nuvens. Introdução e Tradução de Junito de Souza Brandão. Rio de Janeiro, Grifo, 1976, p. 20sqq.

pleno século IV a.C, surgiram duas novas modalidades de interpretação do mito, as quais, a seu modo, vão contribuir para "salvar uma certa mitologia" e, como se há de ver mais adiante, para perpetuá-la no "cristianíssimo" mundo ocidental. Alegorismo e Evemerismo, eis aí os dois novos monstros sagrados. Trata-se, como argutamente percebeu Mircea Eliade, comentando essas duas últimas novidades do pensamento grego, não apenas de "uma crítica devastadora ao mito", mas de "uma crítica a qualquer mundo imaginário, empreendida em nome de uma psicologia simplista e de um raciocínio elementar". 11

Já que os mitos não eram mais compreendidos literalmente, buscavam-se neles as (hypónoiai), isto é, as suposições, as significações ocultas, os subentendidos. Foi isto que, a partir do século I p.C, se denominou alegoria, que significa, etimologicamente, "dizer outra coisa", ou seja, o desvio do sentido próprio para uma acepção translata, ou mais claramente: alegoria é "uma espécie de máscara aplicada pelo autor à idéia que se propõe explicar". Teágenes de Régio, já no século VI a.C, tentara fazer uma exegese da poesia homérica com base na (hypónoia), mas somente no século IV a.C. é que a alegoria descobriu que os nomes dos deuses representavam sobretudo fenômenos naturais.

Assim é que o estóico Crisipo reduziu a mitologia a postulados físicos ou éticos. Homero e Hesíodo estão "salvos"; "salva" está a poesia e a arte, que poderão continuar a beber na fonte inesgotável do mito, embora alegorizado.

Não foi, todavia, só a alegoria que "salvou" a mitologia helênica. Um pouco mais tarde, lá pelos fins do século IV a.C. e inícios do III a.C, o filósofo alexandrino Evêmero publicou uma obra, de que nos restam alguns fragmentos, intitulada “Ier” (Hierà Anagraphé), História Sagrada, que, com o mesmo título, foi traduzida para o latim pelo poeta Quinto Ênio (239-169 a.C.). Trata-se de uma espécie de romance sob forma de viagem filosófica, no qual afirma Evêmero haver descoberto a origem dos deuses. Estes eram antigos reis e heróis divinizados e seus mitos não passavam de reminiscências, por vezes confusas, de suas façanhas na terra.

O Evemerismo, por conseguinte, nada mais é do que a tentativa de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Embora teoricamente antípoda do alegorismo, o Evemerismo muito

11. ELIADE, Mircea. Op. cit., p. 135.

contribuiu também para "salvar" a mitologia, injetando-lhe uma dose de caráter "histórico" e humano. Afinal, os deuses não passavam de transposições, através da apoteose e de reminiscência, um tanto desordenada, das gestas de reis e de heróis primitivos, personagens autenticamente históricas... O próprio Evêmero, aliás, diz ter encontrado na Ilha dos Bem-Aventurados um templo dedicado á Zeus. Neste templo se conservava uma coluna de ouro em que o próprio deus, quando ainda vivia como simples mortal, gravara a história da humanidade! Era a total desmitização. . .

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Após batalhas tão ingentes contra a carência de documentos rituais; contra as reduções introduzidas pela própria literatura e arte figurativa, mercê de suas exigências estéticas; contra o lógos desmitizador dos pré-socráticos; contra a dicotomização e a politização; contra o sistema mecanicista de Demócrito e depois de Epicuro; contra a depuração da scenica Philosophia de Eurípides; contra o mythôdes de Tucídides; contra a lavagem cerebral dos Sofistas; contra o Alegorismo, tão aplicado pelos Estóicos; contra o Evemerismo. . . seria o momento de se perguntar: morreu a mitologia? A resposta é: ainda não.

Com efeito, ao longo de todas essas refregas, dos fins do século VII aos fins do século I a.C, a mitologia, sem desmitização e sem dessacralização, se bem que bastante ferida, manteve-se viva e atuante. A fórmula de tal sobrevivência é facilmente explicável. Se a tenacidade e o vigor, com que os pré-socráticos bem como alguns outros pensadores e "reformadores" combatiam o mito, se tivessem imposto integralmente à consciência grega, a tradição mitológica teria desaparecido por completo. Mas tal não aconteceu, porque os ataques desfechados contra o mito partiram sempre da elite pensante, de filósofos, de poetas e de escritores (com muitas e poderosas exceções) e se uma parcela dessa mesma elite pensante descobriu, sobretudo no Oriente, "outras mitologias" capazes de alimentar-lhe o espírito, a massa iletrada, tradicionalista por vocação e indiferente a controvérsias sutis, a alegorismos e a evemerismos, agarrava-se cada vez mais à tradição religiosa.

De outro lado estava a religião oficial, estatal, que, embora se apresentasse, não raro, como uma liturgia sem fé, tinha interesses óbvios em defender seus deuses, outrora destemidos paladinos da pólis. Mas a grande trincheira da mitologia foram as religiões dos Mistérios, em particular dos Mistérios de Eleusis, dos Mistérios Greco-Orientais, da secular autoridade religiosa do Oráculo de Delfos, do culto do deus do êxtase e do entusiasmo, Dioniso, de modo particular nas Antestérias, de que falaremos no segundo volume, e das Confrarias Órfico-Pitagóricas.12 A tudo isso somaram-se as chamadas soteriologias ou doutrinas da salvação, verdadeiras "mitologias da alma", propagadas pelo neopitagorismo, neoplatonismo, gnosticismo e hermetismo, a cujo lado se expandiram mitologias solares, astrais e funerárias, bem como a magia e a bruxaria.

E se o Cristianismo lutou tanto para impor-se e teve primeiro que "fertilizar" tantas arenas com o sangue de seus mártires, a oposição à nova e autêntica experiência religiosa não teve origem na religião e mitologias clássicas, de resto já agonizantes, alegorizadas e evemerizadas, mas na oposição tenaz das religiões dos Mistérios, das soteriologias e dos diversos tipos de mitologias e religiões populares, que nem mesmo os decretos do Imperador Teodósio (346-395 p.C.), fechando e destruindo templos, conseguiram eliminar. A "extinção religiosa" do paganismo se haveria de conseguir por outros meios, sem repressão e sem violências. E se o Cristianismo, sem nenhuma conivência, sem nenhuma alteração de sua doutrina, adotou da mitologia tantos significantes e tantos símbolos, o fez ad captandam beneuolentiam, isto é, com o fito de atrair os pagãos para a verdadeira fé e para o o escândalo da Cruz. Se, até hoje, muitos estranham e se espantam com "as múltiplas semelhanças" do culto cristão com "fatos mitológicos", isto se deve não apenas à prudente cristianização de significantes da mitologia grega, oriental e romana, mas sobretudo ao Espírito de Deus, que sopra onde lhe agrada. Sob muitos aspectos o Cristianismo salvou a mitologia: dessacralizou-a de seu conteúdo pagão e ressacralizou-a com elementos cristãos, ecumenizando-a. Quando se pensa na homologação, por parte do Cristianismo, das tradições religiosas populares é que os fatos se tornam mais nítidos. "Cristianizados, deuses e locais de culto da Europa inteira, na feliz expressão de Mircea Eliade, receberam eles não somente nomes comuns, mas também reencontraram, de certa forma, seus próprios arquétipos e, por conseguinte, seu prestígio universal. Uma fonte da Gália, sagrada desde a pré-história, por causa da presença de uma figura divina local ou regional, torna-se santa para toda a cristandade, após ser consagrada à Virgem Maria. Os matadores de dragões são assimilados a São Jorge ou a um outro herói

12. Veja-se a respeito dos Mistérios Gregos e Orientais a obra monumental de Joseph Holzner, Autour de Saint Paul, cap. V: "Les Mystères Grecs et 1'Idée du Salut". Paris, Éditions Alsatia, 1953, p. 75-123.

cristão; os deuses das tempestades o são a Elias. De regional e provincial, a mitologia tornou-se universal. É de modo especial pela criação de uma nova 'linguagem mitológica' comum a toda a população rural, que permaneceu presa à terra, e portanto na iminência de se isolar em suas próprias tradições, que o papel civilizador do Cristianismo se tornou considerável. Cristianizando a antiga herança religiosa européia, ele não apenas a purificou, mas ainda fez ascender a uma nova etapa religiosa da humanidade tudo quanto merecia ser 'salvo' entre as velhas práticas, crenças e esperanças do homem pré-cristão". 13

Talvez não fosse de todo fora de propósito recordar uma verdade que o grande Cardeal Jean Daniélou gostava de repetir, verdade que atesta a perenidade da cultura clássica, de que o mito não é parte menos importante: "Uma coisa é a revelação, outra, as representações sob as quais os escritores sacros no-la transmitiram, hauridas, em grande parte, nas civilizações antigas".14

Em conclusão: foi graças ao alegorismo e ao evemerismo e sobretudo porque a literatura grega e as artes plásticas se desenvolveram cimentadas no mito que os deuses e heróis da Hélade sobreviveram ao longo processo de desmitização e dessacralização, mesmo após o triunfo do Cristianismo, que acabou por absorvê-los, porque já então estavam esvaziados por completo de "valores religiosos viventes".

"Camuflados sob os mais inesperados disfarces", evemerizados e despojados de suas formas clássicas, deuses e heróis conseguiram, embora a duras penas, atravessar toda a Idade Média.

Na Renascença, porém, recobertos com sua roupagem de gala, regressaram triunfantes, de corpo inteiro, para não mais se esconder. Salva pelos poetas, artistas, filósofos e pelo Cristianismo, a herança clássica converteu-se em tesouro cultural: Camões, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade, apenas para citar o triângulo maior da poesia em língua portuguesa, estão aí para prová-lo.

Estamos de acordo com Georges Gusdorf: "A consciência mítica, embora reprimida, não está morta. Afirma-se mesmo entre os filósofos e sua persistência secreta encoraja-lhes talvez os empreendimentos no que estes têm de melhor. Não se trata, por conseguinte, de uma simples arqueologia da razão. O interesse pelo passado constitui-se aqui na preocupação com o atual".15

13. ELIADE, Mircea. Images et Symboles. Paris, Gallimard, 1952, p. 230.

14. CHAUCHARD, Paul et Alii. La Survie après la Mort. Paris, Éditions Labergerie, 1968, p. 24.

15. GUSDORF, Georges. Mythe et Métaphysique. Paris, Flammarion Editeur, 1953, p. 8.

PRANA

Título do original: Prana

The Secret of Yogic Healing

Copyright © 1996 Atreya.

Publicado originalmente por Samuel Weiser, Inc., York Beach, ME – USA.



O eu é o que você é. Você é Aquela

Entidade insondável na qual surgem

a experiência e os conceitos.

O eu é o Momento

Que não tem chegada ou partida.

É o Coração, o Atman, o Vazio.

Brilha para si mesmo, por si e em si mesmo.

O eu é a origem do sopro da vida,

Não é necessário procurá-lo, ELE ESTA AQUI.

Você é Aquilo por meio do qual você empreenderia

sua busca.

Você é aquilo que você busca!

E Isso é Tudo o que existe.

Apenas o eu existe.

— H.W.L. Poonja

A Verdade É.


GLOSSÁRIO

alopatia: medicina ocidental, medicina moderna.

ashram: lugar dedicado ao desenvolvimento espiritual.

atenção: estar presente; ato de cuidar de alguma coisa; diferente de pensar.

Ayurveda: o mais antigo sistema de medicina do mundo, abordagem verdadeiramente holística desenvolvida pelas mesmas pessoas que formavam os sistemas de yoga; a parte do Vedas que trata da saúde do corpo.

chakra: interseção dos nadis; centro de distribuição de prana; lugar onde são armazenadas impressões energéticas; roda. Com métodos yoga, eles podem ser usados como referências espirituais. chi: palavra chinesa que significa prana. cinco invólucros: na yoga, eles ligam os três corpos; eles são os invólucros material, vital, mental, intelectual e bem-aventurado. consciência: tal como usada neste livro, é a fonte ou substrato de toda manifestação.

corpo astral: o terceiro corpo no sistema ocidental, também chamado de corpo emocional.

corpo denso Ou material: primeiro corpo no sistema yoga.

corpo causal: o terceiro corpo no sistema yoga; diz-se que é a causa da reencarnação individual.

corpo cósmico: sexto corpo no sistema ocidental; também chamado de corpo da inteligência pura.

corpo espiritual: quinto corpo no sistema ocidental; também chamado de corpo intelectual.

corpo etérico: segundo corpo no sistema ocidental, também chamado de corpo vital ou invólucro vital.

corpo físico: primeiro corpo no sistema ocidental.

corpo mental: quarto corpo no sistema ocidental.

corpo sutil: segundo corpo no sistema yoga. NOTA: Na tradição da yoga, o invólucro material fica no interior do corpo material; o invólucro vital recobre o corpo material; o invólucro mental fica no interior do corpo sutil; o invólucro intelectual recobre o corpo sutil; e o invólucro bem-aventurado recobre o corpo causal. O segundo (etéreo), terceiro (astral), e quarto (mental) corpos do sistema de sete corpos correspondem ao segundo (vital) e terceiro (mental) invólucros e o corpo sutil do sistema yoga, ou reino da mente. O quinto corpo corresponde ao quarto invólucro (espiritual ou intelectual) e o sexto corpo ao quinto invólucro (inteligência pura) (ver figura 2). 0 sétimo corpo é outro nome para a própria consciência, não tendo nome nem forma; diz-se ser a existência, consciência, bem-aventurança (sat-chit-anand). E interessante observar que se considera que o segundo corpo (corpo sutil) da yoga, e os invólucros vital e mental funcionam como uma unidade.

cura holística: modo total de abordagem da saúde, incluindo corpo/ mente/emoções.

ego: consciência personalizada; eu sou; surge da união dos dois primeiros princípios, prana cósmico e inteligência pura.

energizar: terceiro passo no tratamento de um paciente; dois métodos, atenção e respiração prânica.

"Eu": de acordo com os ensinamentos não-duais transmitidos nos dias de hoje, significa o primeiro conceito de individualidade que brota de fonte não-manifesta. Prana e inteligência surgem desse conceito de “Eu”. Ramana Maharishi denomina esse conceito "o Eu pensante", ou a primeira causa da ignorância.

exploração: mapeamento; primeiro passo no diagnóstico de um paciente.

guru: literalmente, um disseminador da ignorância; mestre; aquele que conhece o substrato ou origem de toda existência; mestre de si mesmo.

impressões energéticas: em sânscrito existem dois tipos: vasanas e samskaras; estas são impressões Iatentes, inconscientes ou armazenadas, ou impressões mentais atuais; essas impressões ficam armazenadas no corpo sutil da yoga ou nos corpos etéreo, astral e

mental do sistema ocidental; a yoga diz que essas impressões são o que encarnam em outra vida, porque elas não podem atingir a superfície na consciência; essas impressões tendem a se reunir em torno das áreas dos chakras.

investigação: método para descobrir de onde se originam os pensamentos, o prana; pergunta-se: "Quem sou eu?" (ver livros de Ramana Maharishi e H.W.L. Poonjaji).

inteligência: primeiro princípio surgido do substrato.

intenção: objetivo que a pessoa tem ao fazer algo; meta; requer uma idéia de direção; ato.

Jnana-yoga: yoga do conhecimento ou caminho direto; yoga supremo.

ki: palavra japonesa que quer dizer prana.

limpeza [purificação]: varrer; segundo passo no tratamento de um paciente.

mente: pensamentos em movimento, dando a ilusão de continuidade.

nadi: canal por onde circula o prana no corpo etérico.

nãomente: não-movimento do pensamento; percepção completa, não se deixar confundir peto absoluto; o indivíduo pode ainda existir nesse ponto; podem ser necessárias várias vezes mergulhado na nãomente antes que o indivíduo dissolva-se no divino.

prana: Pra (antes), ana (respiração); força vital; ki; chi; segundo princípio; surge do substrato com o primeiro princípio, inteligência; juntos eles criam a consciência individualizada. Há cinco pranas principais no corpo humano: prana, apana, samana, udana e vyana. Eles surgem do prana cósmico, ou segundo princípio.

pranayama: método de respiração controlada usado para regular a mente, a respiração, o prana, e por conseguinte a saúde física e mental; deve ser praticado apenas com instrutor qualificado.

qualidade: o atributo ligado ao prana ou corpo.

samskaras: impressões energéticas inatas (ver impressões energéticas).

sétimo corpo: último corpo no sistema ocidental; impossível nomear ou descrever.

substrato: neste livro, idêntico ao Absoluto, Consciência, Deus, Amor, Brahma, Atman, Eu ou Fonte.

tantra: caminho que aceita todos os aspectos do mundo físico, acreditando que todas as coisas levam ao divino; aceitação total; muitas vezes tido como que limitado ao sexo é, na verdade, uma abordagem total.

vasanas: impressões energéticas latentes (ver impressões energéticas).

Vedas: literalmente significa conhecimento, mas usado aqui significa o Livro da Sabedoria, o livro mais antigo do mundo. Existem quatro Vedas.

yoga: união; aquilo que leva a pessoa de volta à Fonte original; geralmente entendido como caminho ou prática que leva ao divino. Os diversos tipos ou caminhos da yoga, começando com o corpo, são: Hatha-Yoga, Laya-Yoga, Bhakti-Yoga e Raja-Yoga.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

sol

... O Sol se ergueu em sua majestade;
O mundo tão gloriosamente contemplando
Que os cedros e vaies parecem ouro lustrado
Vênus o saúda com seu doce bom-dia:
"Ó tu, claro deus, padroeiro de toda luz,
De quem cada Campada e brilhante estreia empresta
Essa bela influência que as faz brilhar... *
— Shakespeare, "Vênus e Adônis

Sol ocupa uma posição única na astrologia. Não é igual aos outros planetas. Fica de fora, acima dos outros, devido ao fato de que todos os planetas giram em torno dele. É o centro do grupo; sua luz e seu calor permitem que a vida exista,
cresça e se desenvolva — ao menos na Terra. A primeira religião verdadeiramente monoteísta na história humana foi um culto solar, instituído pelo faraó egípcio Akenaton. O hino composto por esse precoce pensador religioso ainda sobrevive e indica que para Akenaton, assim como para os primeiros habitantes do planeta Terra, o Sol era a fonte de toda a vida:

Ó Rá
Na alvorada abres todos os horizontes,
Cada mundo de vida que fizeste
É conquistado pelo teu amor.
Como a luz do dia segue a ti,
Ela anda em paz...
Tudo o que foi criado
Foi criado em teu coração:
A Terra, as pessoas sobre ela,
Os alados, os de quatro patas,
Os que nadam, todos...
Eu sou teu filho.
Na maior de todas as alvoradas,
Eleva-me!12


A posição do Sol na roda do horóscopo, junto com seu signo e aspectos, tem sido para muitos astrólogos o ponto de referência principal. Talvez por isso a astrologia solar tenha se tornado tão popular. Mas, apesar de sua importância, o Sol não é o único fator no horóscopo; o destaque dado à astrologia solar nos jornais e revistas conspirou, na verdade, para impedir que o público tivesse consciência dos aspectos mais profundos da astrologia como um sistema integrado, holístico de pensamento. Embora a discussão sobre a importância do Sol em relação aos outros planetas vá se estender por muitas décadas, a maioria dos astrólogos provavelmente concorda que ele é ainda o primeiro item estudado na leitura de um mapa e, combinado com a Lua e o ascendente, constitui a maior parte dos dados essenciais a se basear na leitura astrológica.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Seja um Grileiro! Que video porreta.

video

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

sombra da Terra na Lua

Detalhe decorativo de um documento de cálculo para determinar o tamanho da sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar. Feito no ano de 1540, três anos antes da publicação do livro de Copérnico, e trinta e um antes do nascimento de Johan-nes Kepler. Do Astronomicum Caesarium, de Petrus Apianus, Ingolstadt, Alemanha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Zen em quadrinhos